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Visto e ouvido naquela venda de portas abertas para
o estradão:
Entra alguém de pele morena e rosto sério e ao mesmo
tempo jovial, porte bem-apessoado e com voz
naturalmente grave e pede:
—Seu Manuel, vai uma pinga!
—Mas, não acredito, o senhor é o senhor mesmo,
seu Tião? Não pode ser!
—Tião, às suas ordens.
—Mas, não acredito mesmo, Tião Carreiro em minha venda? Não pode ser!
—Não pode ser, mesmo! Sou Tião, mas não sou Tião
Carreiro coisa nenhuma. Não sabe que ele está
tocando pagode no céu? E essa pinga, sai ou não sai?
—Sai, sim. Olhe, aqui está! Pronto. E a quantas
anda, seu Tião?
—Por enquanto sou Tião-sem-carreira.
—Tão mal assim?
—Estou vindo lá das bandas, sabe de onde? De
Pardinho.
—Então, Tião! Pardinho?
—Cidade boa. Pequena, fica à proximidade da rodovia
Castello Branco, aqui mesmo em São Paulo.
—Conheço Pardinho, Tião.
—Pois, é, seu Manuel. Foi lá que me enrosquei em uma
empreitada perigosa: fui roubar uma moça, em um
ninho de serpente. Ela queria casar comigo, mas a
família não consente. Me mandaram um recado: estavam
armados até os dentes.
—E
aí, Tião?
—Arranjei um cavalo bem ligeiro e mansinho e um Colt
cavalinho.
—E
aí, seu Tião, conseguiu roubar a moça?
—Que nada, seu Manuel. Bem na hora que eu cheguei no
rancho dela, fiquei sabendo que ela não estava.
—Havia fugido?
—Não, seu Manuel, pior! Estava num pagode em
Brasília! Em Brasília, seu Manuel. Longe prá burro!
—E
aí, seu Tião?
—Os irmãos dela, seu Manuel. Os irmãos.
—O
que têm eles?
—Me pegaram, passaram o couro e me mandaram embora.
Deram de laço dobrado e eu saí até com os verso
quebrado. Me cortaram de espora!
—Barbaridade.
—Ainda por cima, prepararam uma cilada: fui à noite
num banquete, com champanha envenenada.
—E
a taça que era sua, foi parar em mão trocada.
Acertei?
—Que nada, seu Manuel. Bebi tudinho e me deu uma
caganêra, que fui pará no hospitar.
—Barbaridade!
—E
ainda por cima, me deram um tiro.
—Bala bateu em seu peito, derreteu, virou medalha. E
nada lhe aconteceu de ruim...
—O
que é isso, seu Manuel? Pegou foi bem na bunda e
estou sem sentar há uma semana!
—Coitado! E agora?
—É
muita navalha na minha carne, é muita espada prá me
furá;muita lambada nas minhas costas e muita gente
perá me surrá...
—É, a coisa tá feia!
—A
coisa tá preta, seu Manuel. E quem não for filho de
Deus, tá na unha do capeta!
texto de autoria de Luiz Viola
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